• Qui 04 Maio 2017

    ÁRIDA

    Hugo Monteiro

    — docente e investigador —


    i. Nenhum corpo se experimenta sem desadequação. Porque não há experiência sem desadequação. (Ponto um. Ponto único.)


    ii. O corpo experimenta-se pela extremidade, pela pele, pelo rebordo e pela superfície. Toca outras extremidades e organiza-se a partir desse toque – e permanentemente se desadequa, acorda de cada vez para a sua assimetria, angulosidade, rotundidade, peso e leveza... Por isso o corpo desperta a cada passo, e de cada vez reaprende a andar, a locomover-se e a resistir, ágil ou trôpego, volátil ou solidificado.


    iii. E, por isso mesmo, Árida faz justiça ao próprio argumento da sua apresentação – “composição coreográfica” – quando a articulação entre corpo e espaço exige um processo de composição. Nada está arrumado, nem estabelecido, nem programado, quando o corpo negoceia e se confronta com as superfícies em que toca, numa ânsia de construir uma lei própria e um espaço que seja seu. A composição é o processo pelo qual, sentida a inadequação essencial, o corpo se conflitua criativamente com o que se lhe opõe, aspirando à lei própria e desejando construir a partir de si mesmo: em oposição, em reaprendizagem, em resistência.


    iv. Entre a construção da lei própria e os obstáculos que a dificultam há a desadequação, o sentir da desadequação e o espaço composto e disposto pela encenação coreográfica. Daí o tal ponto único desta nota, lateralizada a partir de Árida de Maria Ramos: tudo é desadequação num corpo, assimetria e desajuste que se reclama no espaço, que nele se impõe – fragilidade afirmada na solidez de tudo, em negociação permanente e em revolução permanente. Viajemos um pouco.

    v. Entre Megara e Atenas vivia Procrustes. Furtiva personagem da mitologia clássica, Procrustes oferecia guarida a quem por ali peregrinava, fornecendo aos caminheiros ora uma cama grande ora uma cama pequena. Os incautos passeantes não desconfiavam da pouco hospitaleira intenção de Procrustes, cuja vocação criminosa tinha um critério obsessivo: cortava e estropiava os membros à medida da cama pequena, ou alongava e esticava os corpos na exata extensão da cama grande. Perversão exata e corporeamente formulável: à lei da espada e do garrote, Procrustes eliminava o excesso ou a insuficiência. Impunha as leis do espaço às leis do corpo. Era a soberania do espaço, neste caso num único espaço – o espaço impondo-se ao corpo, o corpo subjugando-se ao espaço.


    vi. Regressemos, agora. Cabe a Herberto Helder a missão de nos reintroduzir no quotidiano, ainda num aceno vago ao leito de Procrustes. Ele conta-nos, em Photomaton & Vox, uma história que quase dialoga com o mito clássico, ainda que com uma moral em contracorrente. E narra:


    vii. “Havia uma rapariga que era maior de um lado do que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam.”


    viii. No avesso de Procrustes, pois… As leis do corpo, no assumido e irredutível confronto com o espaço, e com o tempo no espaço. Na voragem e na tempestade, no confinamento do exíguo ou na mais desértica imensidão – nada se experimenta sem assimetria, sem oposição, sem resistência. Nem um corpo. Especialmente um corpo, cuja relação ao espaço varia entre aridez e confinamento, entre agilidade e adormecimento, que são sempre disposições opostas a uma lei física qualquer. Todo o corpo contraria a perversão de Procrustes sob pena de se extinguir, de desaparecer numa espécie de normalidade indemne, que só é perdoável por não existir, mas que se mantém imperdoável no bisturi de todos os Procrustes ainda subsistentes no mundo. Todo o corpo está no avesso de Procrustes, por não caber, por ousar desproporcionar-se; no avesso de Procrustes ou nos lugares da dança.


    ix. Reforçando o ponto: não há experiência sem desadequação, porque não há experiência sem provação. Sim, está na etimologia, mas não é disso que queremos falar por agora. Se falamos de corpo, de corpo concreto, não há experiência sem distensão, sem atrofia. A experiência de corpo é menos a sua interrogação (o exterior caricaturável no gesto impositivo de Procrustes) do que a exposição às mais diversas formas de vulnerabilidade, ou de inadequação, ou de incómodo, ou de maleabilidade. É esta vulnerabilidade que põe o corpo em jogo e é a partir dela que o corpo, espacializando-se, se afirma no centro de uma composição, que nunca um mero elemento.


    x. Corpo anguloso: a sua margem é dura e inflexível, é tosca e brusca. A cada passo, articulação ou movimento denunciam a sua imperfeição. Cada esquina, cada vértice, são dissonâncias num nó de coluna, numa articulação, num osso… cada ângulo testa e comprova a dureza da matéria e a concretude do obstáculo.


    xi. Ou corpo volátil: ínfimo ante os elementos, mais leve que a própria leveza e prestes a despegar-se do chão, rodando sobre si próprio, eternamente esmagável,


    xii. nenhuma experiência de corpo se faz sem desadequação. Volátil (xi) ou anguloso (x), o corpo (i) reconsidera o espaço (ii), reclama-o para uma sempre combatida expressão de si (iii), em oposição (viii) ao cruel estalajadeiro de Atenas (v) ou a qualquer grilhão de confinamento, ou de estagnação normalizada (vii). O que não vai sem dor ou provação (ix), condição fundamental de qualquer experiência. A partir de Árida, de Maria Ramos, seria este o meu ponto único.


    Fotografia © José Caldeira