Duas histórias do movimento | Parte I: a chegada da paisagem viva + Parte II: Ser em paisagem
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2022

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Alexandra Costa

— Artista e investigadora —

O que significa isto de movimento? Variação da posição espacial de um objeto em relação a outro num determinado espaço de tempo. Tempo e espaço. O não-movimento, também designado de estática, será definido como ação de forças que se equilibram. E, nesse sentido, será então o movimento a falta de equilíbrio?

 

Parte I: A chegada da paisagem viva

 

“Quem procura aproximar-se do seu próprio passado soterrado tem de se comportar como um homem que escava. Fundamental é que ele não receie regressar repetidas vezes à mesma matéria (Sachverhalt) – espalhá-la, tal como se espalha terra, revolvê-la, tal como se revolve o solo.”

                 Benjamin, W., Imagens de Pensamento

 

Ficar horas sem mexer. Enquanto estamos parados podemos observar tudo o que se movimenta.

O som que se repete em movimento contínuo.

Aquilo que parece uivo e parece canto.

A monocórdia do som, que parece uivo e parece canto.

Tornar-se pedra, ser com a pedra, ser pedra. Comportar-se como se comportam as pedras. As pedras que se movimentam.

Estar parado é um local. “O movimento está no corpo movido, corpo esse que não se movimenta.” Ser potência e potencialidade.

Os ossos fazem som de pedra. O peso conduz o movimento, e o corpo segue o balanço e completa-o. Ser extensão de. Ser sempre em extensão.

Escavar e revolver, e ser terra viva. Ser ritmo. O som começa no ser ritmo. O som onde tudo começa e para onde tudo regressa.

Encher-se de terra, de astros, de pó. Três partes do mesmo movimento.

Acionar a memória. Não a recordação, mas a memória viva. Fazer uso da energia primitiva. Territorializar-se entre pedras, aprender o seu movimento.

Os corpos que sofrem apenas translações podem ser reduzidos a pontos materiais. Todos os pontos materiais têm dimensões desprezíveis. Podemos então estender-nos, experimentar os territórios de passados e presentes, experimentar as precessões e nutações. Ser oscilação do eixo, permitir que nos tornemos paisagem viva. 

 

Parte II: Ser em paisagem

 

How does the body scape, ou quando é que o corpo é paisagem?

As paisagens compõem-se de linhas que se deslocam em diferentes latitudes e longitudes. Ao invés do “dentro” e do “fora”, pensemos num “e” e num “entre”. A paisagem passa a ser então um encontro de diferenças e de interferências múltiplas de singularidades.

 

“Já não há estrutura nem génese. Há apenas relações de movimentos e de repouso, de velocidades e de lentidão entre elementos não formados, pelo menos relativamente não formados, moléculas e partículas de toda a espécie. Há apenas hecceidades, afetos, individualizações sem sujeito, que constituem agenciamentos coletivos.”


          Deleuze, G., Guattari, F., in Mil Planaltos – Capitalismo e Esquizofrenia II

 

Não há um ser em paisagem, há um ser paisagem, quando os limites e as fronteiras desaparecem dos corpos e se produzem os organismos vivos, contínuos. Não existe uma direção, existem diversas linhas que agem de forma simultânea em diferentes direções. Não existe início ou fim de movimento. A paragem ou estática não se impõem como fim, mas como parte do próprio movimento. 

 

Estes movimentos multidirecionais e não hierarquizados permitem uma movimentação maior que atinge diversos planos de tempo e espaço. A descentralização dos corpos permite a expansão do organismo, cuja natureza não é a da unidade compacta, mas a da multiplicidade, e cada uma das linhas se impõe como meio de conexão e deslocamento.

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