Ter
8
maio
2018

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Ensaio para uma Cartografia: Hino à (R)existência
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Quando eram 19 horas o tempo ficou suspenso.

O Ensaio para uma cartografia suspende o seu tempo, o tempo do público, e leva-nos para uma zona diferente, uma zona íntima, resistente, e, acima de tudo, de religação – essa é a promessa que a criadora deixa no ar quando indica que a palavra religião seria o mote, a expressão da vontade de nos religar com um trabalho que vem desde 2014 e que se vai manter até 2021.

Dezasseis atrizes entram em cena acompanhadas dos seus instrumentos musicais, deixando adivinhar que a dança e a música clássica serão as temáticas que irão ser tratadas.

Porém, assim que os instrumentos são retirados dos respetivos sacos de transporte e são preparados para ativação, também as atrizes, mais tarde, retiram as suas roupas. Um nu que não é apenas um nu. Um nu que é figurino. Um nu que mostra dezasseis corpos do sexo feminino distintos entre si. Não há um padrão. Não há uma regra. As roupas são deixadas aos pés do público. A promessa de religação e a ligação íntima teve aqui o seu registo.

Uma pausa para respirarmos.

A luz mostra-nos um coro de dezasseis pessoas que repetem até à exaustão um movimento do Bolero de Ravel. Em primeiro lugar, com ordens vindas do exterior, e, ao longo do tempo da peça, é apenas a música, é apenas a dança da música, que contagia os corpos. Corpos que resistem. Corpos que têm lágrima na forma de suor. Corpos em constante diálogo sem que uma única palavra seja trocada. Corpos e olhares sobre o público. O movimento já não é mais uma mera expressão de coreografia, mas sim uma marcha. Uma imposição. Uma tomada de posse daquele espaço forrado a linóleo e que fica com a marca da passagem de dezasseis guerreiras que durante duas horas representam a resistência.

Em movimentos rasgados nas verticais do palco, elas também correm sobre nós. A provocação é constante. A tentativa de todas usarem pontas é mais uma camada de leitura. A tentativa, na verdade, é rainha e senhora de toda a performance. A tentativa de reproduzir a música, a tentativa de fazer pontas. Feito de forma honesta, executado à nossa frente. Sabendo que estavam expostas e assumindo-o. O erro, o belo e a energia em plena sintonia a tocarem uma melodia corporal para nós. Esta imagem aliada ao facto de estarmos na presença de corpos desnudos. Corpos presentes.

Assim que o Bolero se torna mais intenso, mais intensamente estes corpos marcam passo, o chão treme com a marcha. E todos nós, todos nós que respiramos o mesmo ar naquele momento, todos nós somos resistência e vivemos e acompanhamos dezasseis histórias que nos são contadas sem uma única palavra. Cada olhar, cada lesão, cada massagem numa zona magoada conta uma história. Traz histórias. Evoca a marca da resiliência.

Ensaio para uma cartografia podia ser apenas a história de dezasseis atrizes que arriscaram ser bailarinas e músicas. Contudo, o coro de mulheres marcha lentamente, no final, do fundo de cena até à boca de cena para mostrar o resultado de um esforço através do estado dos corpos, demonstrando que estamos perante um objeto artístico vivo, provocador, e que em última instância nos obriga a pensar: tudo o que interpretamos e sentimos desta criação é reflexo das paredes do nosso coração pintadas de memórias dos momentos de luta - em silêncio - pela escuta da vontade.

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