Qua
16
maio
2018

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Nos Amours: a liberdade é livre arbítrio e destino
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“…Entre coração e cabeça pôs um vazio as paredes de dentro do vazio em matéria de receber e um dia houve luz dentro do vazio…"

Almada Negreiros



“Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference. “

Robert Frost




A peça "Nos Amours", coreografia de Julie Nioche, foi concebida em 2016 para se trabalhada por um duo.

Na apresentação em Serralves a bailarina esteve em palco a solo, sob tutela determinante da figura [espécie de sua sombra e títere] que manipulou o grande círculo de néon branco, elemento simbólico, cénico e objeto transacional – algo entre o humano e o sagrado. Entre o diurno e o noturno, Gilbert Durand dixit.


« Lors du processus de création, nous créerons une danse à partir des mémoires ravivées par différentes techniques somatiques pratiquées. Aussi, chaque hommage amoureux s'inspirera de l’écoute d’une variation Goldberg de J.S. Bach interprétée par Glenn Gould. Peu à peu Les Variations s’effaceront, il ne restera que les vocalises de Glenn Gould, cette trace qu’il a laissée sur cette musique. Ce chant, c'est ce qu'il a offert de lui en jouant, c'est une ouverture sur son intimité. Pareil à ce que j'attends de la danse. »

Julie Nioche in http://www.ccntours.com/saison/heure-curieuse-avec-julie-nioche


Estou a lembrar as vozes do corpo/coro a capela que acompanharam o desenvolvimento coreográfico de Julie Nioche. Como as vozes desse “corpo comunitário” me obrigaram a recuar; o querer muito reconhecer as notas de Bach, em modo Glenn Gould.

É o mito do eterno retorno, como nos ensinou definitivamente Octavio Paz. O tempo mítico é circular, o dos humanos é linear, sempre em frente ainda que recheado de sinuosidades, quebras, reinícios e dissidências maniqueístas consigo mesmo. Entre Kronos e Kairós.

Estou a ouvir Glenn Gould a interpretar as variações Goldberg, num registo que demora 39’19. E a pensar como para um pianista é compulsivo tocar.

Como lhe doem as mãos quando impedido de tocar; como dói ao bailarino não dançar. Como pode o pianista entoar sons, assim acompanhando com todo seu corpo, as mãos e o seu pensamento sobre as teclas. Como um bailarino se lança em vozes mudas, mentais ou explodidas a gritar o corpo na sua memória e ensejo de destino.

Como um pianista é humano e usa o corpo todo como performer. Como um[a] bailarino[a] pensa a inconsciência, as pulsões expressando gestos, posturas e quietudes coreográficas.

Como o corpo do pianista está convocado e sentirá as contraturas e estremecerá a sua cabeça ao tempo que entoa e toca, mergulhado no seu afazer - que o afasta e entranha mais em si mesmo, tornando-se outrem.

Como o tempo se subverte nas sucessivas repetições sempre que, durante o estudo das peças – quer ao piano, quer na dança - não se contentando – nem pianista, nem bailarino[a] com as sonoridades invisíveis ou as medições osciladas pela nuca, pelo braço, pelo torso, por todo o corpo afora.

Eis algumas das “afinidades eletivas” a identificar entre Glenn Gould (um dos três pianistas no livro O Naufrago de Thomas Bernardt) e Julie Nioche (a bailarina que é uma alegoria da intimidade psicoafectiva que provavelmente é partilhada por muitos bailarinos). E trazido até nós, o público pelas vozes à capela que são herdeiros da consciência grega de um coro mítico-simbólico, arquetípico mesmo.


O pianista canadiano começou a gravar o início das Variações Golberg (as variações para o Sr. Golberg…) em junho de 1955.

Agora estou a ouvir as Variações Golberg gravadas por Glenn Gould em 1981. Ora são algo mais lento, ora se apressam.

Cada nota persiste mais como um movimento desenhado e preso no espaço.

Cada nota ecoa e demora a deixar chegar a próxima sequência. Como se o tempo perdurasse mais, se o tempo fosse demorado em cada tecla acionada, em cada desenvolvimento controlado do corpo da bailarina, como se fosse possível domesticar o tempo. Como se o gesto de uma secção do corpo dançante pudesse ser dominado a partir da consciência das entranhas e respondesse a apelos de solidão – mesmo quando acompanhado e não se acomode a estar sozinho.

Esse é o círculo de uma dosagem de notas, de frases, de posturas, de gestos, de finas motricidades quase mínimas, que se agarram e como que se aniquilassem, espécie de ouroborus dançante no congelamento das imagens internas e consecutivas. É o círculo.



Círculo – em termos iconográficos - seduz pintores e escultores da contemporaneidade, que glosam a memória simbólica de um tempo a que os humanos se sabem alheios, pois o circular é do sagrado, do divino, forma perfeita – sem princípio, nem fim - na repetição e invenção que são movimentos incessantes, sob auspícios da música das esferas, como quis Pitágoras:

Kasimir Malevich - Plane in Rotation, Called Black Circle, 1915

Robert Morris - Ring with Light, 1965-96

Robert Morris – Untitled, C.1965

Yoshihara – Untitled, 1965

Mauro Staccioli – Installations in volterra, 1968

Rui Chafes - Dollund, 1987

Rui Chafes - The world becomes silent, 2004

Estela Sokol - Black Sun, 2011

Estela Sokol – Soturno, 2011

…entre muitos outros trabalhos bi e tridimensionais que se poderiam nomear, articulados e celebrando a forma geométrica lumínica que impera na peça "Nos Amours" de Julie Nioche.



Luz que está dentro de cada pessoa, carece uma sombra que a destaque e empurre a vir para fora, por assim visibilizar a ideia interna e introspetiva que a consigna.

A projeção lumínica é um topo forte, sendo um mitema dominante (uma imagem obsessiva, na terminologia de Charles Mauron) na iconografia e na poética de inúmeros criadores de todos os tempos. A projeção determina e reside em estado de latência, numa implicação imbrincada que serve para ampliar a essência de si mesmo transposta, aqui, nos desenhos da série de “vidros” que motivaram esta conferência. A capacidade de projetar luz, de iluminar relaciona-se com a frase emblemática de Paul Éluard “Donner à Voir”; é uma metáfora efetivada através de procedimentos técnicos que lhe garantem uma reificação para além do simbólico e do mitológico, ainda que indissociáveis.

Segundo os princípios da estética medieval da Luz, a Luz é a origem de "todas las operaciones ocurridas en el mundo de la experiencia, incluidas las operaciones vitales, psíquicas y espirituales." (Edgar de Bruyne, La Estetica de la Edad Media, pp. 79-85). A Luz é concebida esteticamente em termos metafísicos e teológicos, é a essência mais pura, a beleza mais sublime, aquela cuja presença gera a maior fruição (Robert Grosseteste); é princípio de energia atuante sobre a matéria, é cor e splendor; da luz proveem as cores das coisas e o brilho que delas emana (s. Boaventura), tornando-as belas. A Luz é causa eficiente da beleza, difundida pelo Sol torna visíveis as cores, criando o esplendor estético (Ulrich de Strasbourg).


Memória

“A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam. O significado é essa espécie de mapa das intervenções que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto – eis a invenção.”

Ana Hatherly, 351 tisanas, nº 120



“O nosso corpo é uma parte do Mundo - um membro, melhor dizendo: exprime já a autonomia, a analogia com o Todo – em resumo, o conceito de microcosmo. A este membro tem de corresponder o Todo.”

Novalis, Fragmentos


A memória parcelar de dois excertos da memória de meus autores diletos, aqui apresentados porque sintetizam como eu não saberia dizer, o que é suscetível de ser revisto na coreografia psicogramática. Aquilo que seja substância ambicionada (“auspiciada”), pois frutificada a partir de pulsões genuínas. Assim, penso eu, quis exprimir o que é para os demais ilegível, o que é invisionável. São as memórias vividas pela Coreógrafa, desenroladas em páginas/movimentos, inscritos numa espécie de jornal intime et chorégraphique discipliné…





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