Sáb
13
maio
2017

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O POÇO
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O poço. O fundo de um poço.

Um espaço oculto revestido pela imensidão do negro que dificulta a perceção visual e espacial do espetador que tem apenas um ponto inicial de focagem: um som denso, grave e persuasivo.

O espetador torna-se parte integrante da peça. O processo anterior - o discurso antecipado, o percurso realizado e a entrega de uma máscara - vem questionar e preparar o indivíduo para um momento algo tenebroso, algo surpreendente. Finalmente é encaminhado para uma estrutura metálica onde irá permanecer de pé durante toda a viagem, posicionado sobre os varandins que permitem visualizar o interior do espaço de atuação.

Por entre murmúrios e o som de fundo, a peça progride através de uma derrocada sonora, de queda livre, que trespassa todo o espaço vertical. Ouvem-se moedas cintilantes a cair e a bater no fundo do poço. Não se sabe de onde vêm e para onde vão.

Lentamente a escuridão desvanece, dando lugar a jogos de luz e sombra através de focos rasantes que iluminam parcialmente o cenário, sobressaindo um buraco negro ao centro.

Um grito. De repente um conjunto de seres emerge da paisagem árida e começa a correr militarmente em torno da cavidade, levando a uma exaustão dos corpos. Sobressaem-se os pontos luminosos presos aos pés que criam um raio fugaz no solo.

O poço torna-se num espaço onde variadas dimensões espaciais são exploradas. A intangibilidade manipulada através da composição sonora e a sua espacialização absoluta tem a capacidade de hierarquizar a presença humana inserida nos diferentes patamares de ação. Essa massa sonora imensurável inicialmente atribui ao espetador uma escala inferior no espaço, mas posteriormente é-lhe concebido um certo poder altivo com o surgimento dos intérpretes que se encontram “no fundo do poço”.

A certo ponto o espetador descobre que está perante um delírio onde o corpo é explorado e (e)levado a um nível multissensorial através de imagens e ações fugazes que surgem do solo; de flashadas de luzes polirrítmicas intercaladas pelo imenso nevoeiro no ar rarefeito criando visões ilusórias no vácuo e no solo, por estrondosas ressonâncias sonoras emitidas em todas as direções, conduzindo-o a um sucessivo ciclo vicioso - a um buraco sem fim.

Dois vultos imprevisivelmente levam para cena duas motas, uma fora do poço, outra dentro. Através da mecanização dos motores exacerbam a componente sonora e originam um dueto compulsivo e acelerado à ação. O indivíduo fora do poço cria um cenário impetuoso com a mota à medida que contorna velozmente o círculo e cria no solo outras derrapagens circulares. O ritmo e som do motor e a combinação de poeira e fumo em seu redor dão uma sensação vertiginosa a quem está de fora.

Por entre as brumas surgem os restantes membros da tripulação, que num ritmo mais pausado apagam em círculo os vestígios remanescentes na paisagem negra. Novos vestígios surgem, novos vestígios desvanecem.

Sobrepõe-se uma onda de fumo massiva que contamina toda a área e progressivamente cria ondas hipnotizantes de propagação. Surge o som de um coro de vozes que reverbera pelo espaço apaziguando o cenário.

O corpo vertiginoso vibra, intoxica e hipnotiza.

A derradeira imagem recordada é a da derrocada de detritos físicos que caem em queda livre a diferentes velocidades para dentro do poço, para cima dos corpos que se encontram já em repouso total, resultando um cenário caótico e de ruína.

Acendem-se as luzes nos patamares superiores atenuando todo o registo telúrico, onde apenas restam os nossos corpos que acordam, retiram as máscaras, observam e abandonam a máquina.

Nota: Imagem criada a partir de palavras (chave) retiradas do artigo do Ípsilon

https://www.publico.pt/2017/05/13/culturaipsilon/noticia/a-volta-de-um-buraco-negro-esta-o-teatro-em-queda-livre-1771362

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